A morte de Hildemund Gettin

Eu vivia nos arredores de Lordaeron, a noroeste de Montalvo, com minha esposa, Anna. Já iam alguns anos […]

Eu vivia nos arredores de Lordaeron, a noroeste de Montalvo, com minha esposa, Anna. Já iam alguns anos desde que eu começara a trabalhar como ferreiro e as coisas estavam indo bem. Finalmente tínhamos algumas economias e meu talento – e a ajuda de alguns bons amigos – haviam aberto as portas para uma decente encomenda para os estábulos do Rei. Eu estava feliz, orgulhoso e esperançoso.

Mas isso durou até chegarem a nós os primeiros rumores de que coisas estranhas estavam acontecendo pelo Reino. Pessoas iam e vinham apressadas e contavam de coisas terríveis – magia negra, esqueletos que caminhavam, mortos que voltavam à vida. Um dia após ouvirmos essas notícias, minha mulher desapareceu. Tenho tentado com todas minhas forças esquecer aquele dia e os dias que se seguiram. Eu fiquei apavorado, perdido. Passei cada minuto dos dias seguintes buscando por ela por toda vizinhança, batendo nas mesmas portas sem ouvir uma notícia diferente. Ninguém a tinha visto, nem nos arredores dos Solliden ou dos moinhos, nem mesmo em Montalvo. Quando a Srta. Arcenis veio até mim, eu soube que alguma coisa ruim tinha acontecido. Alguns meninos haviam encontrado minha Anna às margens norte do Lago Águas Claras – morta, afogada, olhos escancarados. Senti que minha vida acabara naquele momento.

Lago Águas Claras

Fui para casa e lá fiquei, sentado em frente ao fogo, por dias, talvez semanas. Eu e Cullan, o nosso cão, que parecia se sentir tão vazio quanto eu. Pobre Cullan, se não fosse pela Sra. Venderelt, ele teria morrido de fome – ambos teríamos. Eu não tinha fome, mas uma parte de mim não conseguia desistir. Não era certo. Não era certo Anna morrer, era injusto, inaceitável. Eu tinha que fazer alguma coisa, mas toda a minha vontade tinha ido embora. Por isso, para preservar pelo menos alguma força, às vezes eu me forçava a comer.

Então, numa noite, algumas horas após o pôr do sol, Cullan começou a ficar inquieto. Havia algo lá fora o incomodando. Ele foi até a porta e ficou ali, olhando para o chão por baixo da porta, tenso, farejando o ar, as orelhas se movendo rapidamente. Acordado da minha dormência, eu trouxe uma lanterna para a janela, mas era impossível ver qualquer coisa através da chuva fina e fria. A noite, escura como breu, engolia a fraca luz da lamparina. O único som que eu ouvia era o tamborilar da água sobre a minha cabeça e o silvo da madeira queimando. Alguns minutos depois, Cullan começou a rosnar. Era muito incomum ele ficar tão incomodado, então peguei uma espada – um dos muitos trabalhos inacabados, que servia como machadinha para as cadeiras que alimentavam o fogo – e voltei a sentar. O cão estava me deixando nervoso. Então, algo me assustou. Um fedor. Um cheiro horrível, gorduroso, úmido, agridoce. Eu nunca tinha sentido tal fedor antes, mas me lembrava algo como uma doença.

De repente, o cheiro inundou a sala e gemidos chegaram aos meus ouvidos. Cullan começou a latir com força, então a fonte desses barulhos não poderia estar longe. Foi quando eu vim de novo para a janela e … os vi. Havia pessoas andando sob a chuva. Andando devagar, e gemendo, roncando, lamentando. Alguns estavam mancando, como aleijados. E aquele fedor! Levei um tempo para acreditar nos meus olhos. Os rumores e histórias eram verdadeiros. Estas não eram pessoas comuns – aquelas pessoas estavam mortas!

Mortos caminham

Pela Luz , aquilo não podia ser verdade. O que estava acontecendo com o mundo, o que estava acontecendo com a minha vida? Anna, pela primeira vez na vida, eu estava feliz que você não estava comigo. Aquilo era um pesadelo.

Então, de repente, um dos mortos se virou para mim. Ele me viu pela janela. O medo inundou meu estômago. Imediatamente, baixei a lanterna, saí da janela e colei minhas costas na parede. Cullan estava furioso, latindo com muita raiva à porta, salivando como louco. A lareira lançava uma luz fraca vermelha-alaranjada na sala. O que era era aconchegante agora era terrível, desenhando sombras trêmulas nas paredes. O calor da queima de madeira tornava o ar pesado e doente, cozinhando aquele fedor nas minhas narinas.

Algo tropeçou na varanda e um grito veio de trás da porta da frente. O morto-vivo estava ali. Eu não sabia o que fazer, mas precisava fazer alguma coisa. Então fui até a porta e enfiei a espada por debaixo dela. Um som molhado e nojento foi seguido por um grito abafado e raivoso. Puxei minha espada de volta e ela veio tingida por uma gosma marrom e trazia uma nova carga daquele fedor horrível. Isso me deixou tão enojado que imediatamente vomitei por todo o chão. Esse fedor, que fedor terrível, não dava pra suportar. Eu podia ouvir mais gemidos agora, e passos e pancadas por toda a casa. Estávamos cercados. Presos. O rosto de Anna passou pela minha cabeça naquele momento. Se eu pudesse encontrá-la novamente, talvez a morte não fosse uma coisa tão ruim, afinal. Eu caí de joelhos e vomitei novamente. E outra vez. Esse fedor. Insuportável. Minhas tripas começaram a arder, cãibras subiram por todo o meu pescoço. Minhas pernas começaram a formigar. Cullan latia enfurecido. Eu caí de lado e me contorci, travando os dentes involuntariamente. Não podia me mover. Não podia gritar. A janela explodiu, uma cascata de vidros inundou o chão. Eu podia ver formas de braços atravessando. Um rugido. Um zumbido. Dentro da minha cabeça. Machucando meu cérebro. Fez os gemidos soarem como uma valsa. Um novo estrondo abriu rasgos na porta, pedaços de madeira sucumbindo à morte. Calor. Fedor. Meus olhos inundados de lágrimas. Cullan rasgando mãos por toda parte. A lanterna no chão. Ele a quebrou. Ele estava em chamas. E latindo. Pobre Cullan. Ele estava lutando. Eu estava me afogando. Afundando num vômito escuro. Me engasgando. Cheiro de pelo e carne queimados e um fedor cáustico de morte. Eu estava derretendo pelas minhas narinas, boca, ouvidos e todos os buracos possíveis do meu corpo. Eu estava apodrecendo, meu corpo expulsando de si toda a vida. Cullan estava ganindo e mordendo e queimando. Pobre Cullan. Poucos dias atrás, ele havia perdido Anna e agora estava perdendo o pouco que restava. Eu o entendia. Lutando por sua vida. Sua vida de antes. Se agarrando a ela com todas as forças enquanto ela era incinerada. Pobre Cullan. Um último ganido e ele caiu, duro, escurecido e morto. Deformado, imerso em chamas, ele morreu olhando para mim, seus olhos implorando por perdão. Muito bem, garoto. Muito bem.. Foi a última coisa que pensei enquanto eu estava vivo.

Por Sylvana

Não lembro de muita coisa até ser acordado pelo chamado às armas de Sylvana Correventos. A Rainha me deu uma segunda chance. Uma oportunidade para estirpar esse câncer que é o Flagelo, para liberar outros como eu de sua inexistência e aliviar o peso das minhas dúvidas. Eu tenho uma dívida com Sylvana e pretendo honrá-la – ainda que sob meus próprios termos.

About Sensever

Mais pra Aliança do que pra Horda, mais pra morto-vivo do que pra humano, sempre brigando contra o 'altoholicismo'